domingo, 7 de setembro de 2014

In vino veritas de Soren Kierkegaard

        In vino veritas, escrita por Soren Kierkegaard em 1845 é um dos textos literário-filosóficos mais fascinantes da modernidade. Trata-se de uma paródia ao diálogo O Banquete de Platão. A cena principal do livro é um banquete no qual cinco pessoas são convidadas por Constantino Constantius, (personagem de La Repetition) a participar de um banquete. Os convidados: Victor Eremita (personagem de Lo uno e lo otro); Juan o sedutor (personagem de Diário de um sedutor); e dois personagens anônimos um adolescente e um estilista. Seriam esses personagens heterônimos de Kierkegaard?
Características do banquete: incensos aromáticos; copeiros bonitos; fundo musical Don Giovanni, de Mozart; iluminação adequada; mulheres não poderiam ser convidadas; e, condição básica, fartura de vinho.
Motivo do banquete: Constantino, o anfitrião, propõe aos convidados que cada um pronuncie ao final do banquete um discurso sobre o amor, a mulher e as relações amorosas. Para tanto cada conviva deveria estar "mamado" o suficiente para poder falar sem papas na língua. O mote In vino veritas inscrito no convite indicava que não bastaria apenas falar, mas dizer a verdade. Verdade garantida pelo vinho.
       A certa altura quando todos já estavam alegres e loquazes os monólogos começaram: O jovem discorreu sobra a comicidade do amor; Constantino falou sobre a facécia do amor; Victor Eremita sobre a influência da mulher sobre os homens; Juan, o sedutor teceu um louvor à mulher; e o estilista desenvolveu o tema a mulher e a moda.
       No geral prevaleceu a misoginia, a mulher é considerada de uma ótica negativa face a defesa do celibato ou do hedonismo. O próprio banquete tipo Clube do Bolinha já apontava nessa direção. Exigência de "copeiros bonitos" outro sintoma de viadagem.
       O final do encontro se deu com um brinde elevado por Constantino. Cada participante brindou entornou e em seguida cada qual jogou sua taça para trás, quebrando-a contra a parede.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O CLUBE DO ÚLTIMO HOMEM

O CLUBE DO ÚLTIMO HOMEM

    O jornal O GLOBO em parceria com o jornal português PÚBLICO realizaram o evento VINHOS DE PORTUGAL NO RIO. Aconteceu no Palácio de São Clemente, residência oficial do Cônsul de Portugal. Já passou, foi em maio nos dias 23 a 25. Os jornais promotores do evento publicaram um fascículo sobre o evento  anexado ao jornal do dia 25/05/2014. Dessa publicação retirei essa interessante historinha:

O CLUBE DO ÚLTIMO HOMEM

 "No Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto, obra única no gênero que o brasileiro Carlos Cabral e o português Manuel Poças Pintão editaram, em 2011, há um verbete que demonstra bem a dimensão universal do Vinho do Porto. Trata-se do  “Clube do último homem”, criado na cidade belga de Gent no século passado. Sessenta senhores belgas fundaram um clube fechado, ao ponto de não poderem ser preenchidas as vagas abertas com morte dos associados tal regra devia-se ao "pacto de morte" que justificava o clube. Em lugar de destaque no clube foi colocada uma garrafa de vinho do Porto que só poderia ser bebida pelo associado sobrevivente a todos os outros e por ocasião do funeral do último companheiro.       Quando só restavam dois sobreviventes, um deles disparou: “E se a bebêssemos agora?”. Era uma proposta indecente de quebra do pacto, mas os dois após alguns segundos de seriedade se fitando olhos nos olhos, abriram um sorriso maroto e beberam a garrafa com inenarrável satisfação, brindando à “felicidade dos seus defuntos amigos”.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A chaptalização continua na Europa

O lobby dos traficantes de açúcar é muito poderoso e não permitiu que a União Europeia banisse a prática de utilização de açúcar pela indústria do vinho.

Vários produtores top de Bordeaux tomaram a rara medida de adicionar açúcar ao mosto durante a vinificação das uvas da safra de 2013, a fim de elevar os níveis de álcool em seus vinhos - processo conhecido como chaptalização.


"Inicialmente a graduação alcoólica do mosto nos tanques era de 12,25%, e nós chaptalisamos até atingir 13%", disse Thomas Duroux do Château Palmer.

A última vez que isso aconteceu em Bordeaux foi em 1994. Em 2013, fatores climáticos desfavoráveis provocaram uma corrida entre a maturação e o apodrecimento das uvas. Está sendo considerada uma das mais desafiadoras safras das últimas décadas.

A chaptalização da uva pré-fermentada esteve perto de ser proibida pela União Europeia em 2008 como parte da reforma do setor vitivinícola. No final, manteve-se legal, com limites estabelecidos para as diferentes zonas geográficas de vinificação.

Regras oficiais para a safra 2013 de Bordeaux é que o château não pode adicionar mais do que 1,5% (álcool por volume) para os seus vinhos através da chaptalização. Resta aguardar para saber o quanto isso afetará a qualidade do produto final.


Fonte: Revista Decanter, junho de 2014.

sexta-feira, 28 de março de 2014

QUEM BEBE MAIS VINHO NO MUNDO?

Extra !, Extra ! Interrompemos a 3a Maratona NOSSO VINHO para relatar que o maior consumo per capta de vinho de todo o planeta está na Cidade do Vaticano. Sim, segundo informações do WINE INSTITUTE, os 932 habitantes do Vaticano consomem, em média, 62,02 litros per capta. A média da França é de 55 e da Itália 48 litros. Além disso o consumo per capta do Vaticano cresceu 30% entre 2001 e 2005. Aqui no Brasil o consumo é de apenas 1,65 litros por ano. O Papa Francisco quando esteve de passagem no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, solicitou MIL GARRAFAS DE VINHO. 
Mas a que se deve esta liderança?
O Vaticano teria uma população adulta e isso influencia a média?
Estaria o consumo associado as manifestções e ritos religiosos da Igreja Católica Apostolica Romana?
Seria um hábito alimentar dos integrantes da Igreja?
De fato é um mistério. Vamos continuar com as estatísticas… Chama a atenção a Argentina que está na 14a posição do ranking como primeiro país fora do velho mundo. A pesquisa engloba 5,5 bilhões de pessoas dos quase 7 bilhões do planeta.

domingo, 3 de novembro de 2013

CLUBE DES SOMMELIERS DE MEIA TIGELA

O Clube des Sommeliers é uma invenção dos Supermercados Pão de Açúcar. Desse Clube só conheço o nome. Não sei quantos sommeliers dele fazem parte ou quem são. Só vejo a marca em garrafas de vinho. Se um vinho é recomendado por um coletivo de sommeliers, isso é indicativo de que aquele vinho é bom. E que a gente pode comprar esse vinho sem medo.
Mas isso não é verdade. A marca do Clube des Sommeliers é encontrável em vinhos suave. "Suave" neste caso é um termo enganador. Suave é vinho com açúcar. E vinho desde os tempos bíblicos é uma bebida obtida da fermentação de uvas. Apenas isso. Usar AÇÚCAR DE CANA como ingrediente de vinho é uma forma de adulteração do vinho. Dânio Braga disse no livro que escreveu juntamente com Célio Alzer: "Adicionar açúcar ao vinho é fraude". Dânio Braga é o fundador da ABS -Associação Brasileira de Sommeliers. Meu amigo o enólogo Miguel Ângelo Vicente de Almeida retrucou que "fraude" era quando a lei é desrespeitada. Mas no caso da frase de Dânio e Célio não se trata do aspecto jurídico da coisa, e sim de CORRUPÇÃO DO VINHO COM ELEMENTOS ESTRANHOS.
No que depender da lei os brasileiros estão fritos. Porque a lei que regulamenta a produção de vinhos no país é um monstrengo jurídico, desses que resultam de leis escritas por raposas para serem aplicadas ao galinheiro. Imagine que pela lei brasileira, um vinho espumante tipo BRUT contém açúcar. Para se livrar do açúcar de cana você terá que optar pelo EXTRA BRUT. No caso do vinho "licoroso" (argh, uma droga dessa é vinho?) a lei não impõe um limite, um TETO para a adição de açúcar, mas (pasmem), um PISO. Se o produtor quiser usar 99% de açúcar ele usa.

sábado, 7 de setembro de 2013

A ADULTERAÇÃO DO VINHO COM AÇÚCA

A AVACALHAÇÃO DO VINHO COM AÇÚCAR (chaptalização)
Todos nós, brasileiros, estamos acostumados com os vinhos seco, suave e licoroso; há também o demi-sec. Nunca fui de beber muito vinho; minha bebida preferida era a cerveja. Tinha pra mim que os homens preferiam vinho seco e as mulheres vinho suave. Os muito machos, ficavam com o rascante. Depois que fiquei diabético e passei a me ligar nessas coisas é que vim a descobrir que vinho "suave" é vinho com açúcar. O suave aí é um termo enganador. O açúcar misturado a uma bebida alcóolica a torna mais pesada, indigesta e capitosa (sobe à cabeça mais facilmente) e a ressaca é pior. Vinho de verdade é uma bebida obtida por fermentação de uvas - e só.
Açúcar no vinho é apenas mais um capítulo da história do avanço da ditadura do açúcar (vide: "o livro negro do açúcar" -pdf- ou "açúcar o perigo doce" nas livrarias).
Vinho com açúcar é vinho adulterado. Como diria um bravo português chamado Paulo Carvalho que briga lá na Europa contra a presença de açúcar no vinho: "Se entrar açúcar não é vinho" . No mesmo diapasão Célio Alzer e Dânio Braga afirmam no livro deles, Falando de Vinho: "Em qualquer país adicionar açúcar ao vinho é fraude".
No Brasil, o uso de açúcar pelos fabricantes de vinho era regulamentado pela Lei 6.678, de 8 de novembro de 1988. Em fins dos anos noventa do século que findou tramitava na Câmara dos Deputados um projeto de lei que pretendia dar maiores possibilidades de correção do mosto em fermentação . A redação proposta para alterar trecho da lei vigente dizia: "Ao mosto em
fermentação poderão ser adicionados, alternativa ou cumulativamente, álcool vínico, mosto
concentrado, sacarose e xarope de sacarose invertida" .
O argumento usado para fundamentar o uso de açúcar no vinho era para "corrigir deficiências de açúcares na uva" . Quem assinava esses argumentos era a Embrapa. Puro cinismo: o Brasil, país no qual o sol é abundante, tem uvas mais doces que a Argentina ou
o Chile. A verdade é a cupidez do empresário brasileiro. O açúcar é um produto químico barato que acelera a fermentação, e tempo no regime capitalista é dinheiro.
A avacalhação do vinho com açúcar teve início em 1799 e chama-se chaptalização, em homenagem a seu inventor Jean-Antoine Chaptal. O uso de açúcar no processo de vinificação criou um problema que não havia no processo clássico de fabricação do vinho. O açúcar provoca um tremendo tumulto dentro das cubas de fermentação: a fervura provocada eleva a temperatura, o que estragaria o vinho e interromperia a fermentação. Para que as cubas não venham a explodir elas são envolvidas com tubulações de etileno- glicol ou água gelada.
[Vide: VIOTTI, Eduardo. Guia dos vinhos brasileiros 2003. São Paulo: Market Press, 2002, p. 13.]

0 Projeto de Lei que alargava ainda mais o espaço de
intromissão do açúcar onde ele não foi chamado, foi aprovado. No Brasil há uma dualidade de poderes entre a Anvisa e o MAPA (Ministério da Agricultura), a Anvisa não dá palpites quando o assunto é açúcar e bebidas alcoólicas. E mesmo no âmbito do MAPA há coisas estranhas, o vinho é regulamentado por uma lei (Lei 7.678) e a cerveja por outra (Lei 8.918). Cada galinheiro é regulamentado e fiscalizado por suas respectivas raposas proprietárias.

Mas nem tudo está perdido graças ao Mercosul. Acontece que argentinos e chilenos não permitem por lei a adulteração de seus vinhos com açúcar e o Mercosul propôs como
objetivo a ser alcançado pelo Brasil "parar com essas práticas". Mas pelo andar da carruagem parece que será mais fácil argentinos e chilenos deixarem-se subornar (como já acontece com o Uruguai que usa sacarose nos seus vinhos). Os vinhos argentinos e chilenos divididos apenas em tinto ou branco, hoje já se vê nos supermercados vinho chileno "medio dulce". Ainda estou para saber o que isso significa.
O uso de açúcar deve melhorar o fluxo de caixa de quem fabrica o vinho doce mas prejudica as qualidades organolépticas do produto final. 
A Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, em 2007, sugeriu que a chaptalização fosse mantida onde era tradicional, mas que fosse abandonada progressivamente a partir de 2012.
VINHO ABSTRATO

          Sabendo que o perfume Chanel Nº 5 é um perfume "abstrato" que mistura 80 fragrâncias diferentes. Imaginei a possibilidade de se produzir um vinho "abstrato" com a mistura de dezenas de castas diferentes. Perguntei ao meu enólogo favorito Miguel Ângelo Vicente de Almeida e veja sua resposta:
       Sobre o vinho abstrato obtido da fermentação de dezenas de castas ou do blend de dezenas de vinhos de castas diferentes, todo o vinho é abstrato porque a condição humana que o avalia é abstrata, resulta de uma análise sensorial. Mesmo de uma só casta o vinho é abstrato, é de cada um ou por cada um avaliado de um jeito diferente, nós sempre nos transportamos para o vinho e nele nos encontramos, se tivermos bem nesse dia vamos encontrar só coisas boas, se estivermos mal só vamos encontrar coisas más. O vinho é abstrato, mas nele não deve existir nunca o deslumbre, estilo Romanée-Conti.