quarta-feira, 23 de maio de 2018

SONETO DO VINHO Jorge Luis Borges

"SONETO DO VINHO"Jorge Luis Borges
Em que reino, em que século, sob que silenciosa 
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular idéia de inventar a alegria?

Com outonos de ouro a inventaram. 
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.

Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto

Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história 
Como se esta já fora cinza na memória






"SONETO DEL VINO"

Jorge Luis Borges

¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
Conjunción de los astros, en qué secreto día
Que el mármol no há salvado, surgió la valerosa
Y singular ideia de inventar la alegria?
Com otoños de oro la inventaron.
El vino fluye rojo a lo largo de las generaciones
Como el río del tiempo y en el arduo camino
Nos prodiga su música, su fuego y sus leones.
En la noche del júbilo o en la jornada adversa
Exalta la alegria o mitiga el espanto
Y el ditirambo nuevo que este día le canto
Otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia
Como si ésta ya fuera ceniza en la memória.

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sexta-feira, 23 de março de 2018

O VINHO SUBLIME E RASCANTE

O vinho está presente nas vicissitudes da condição humana. Um bom vinho e tudo que ele demanda para que se lhe confira pleno significado. A taça transparente de haste longa e boca estreita. O vermelho intenso do nectar. A meia luz. O aroma de baunilha. O perfume de mulher. A harmonização com um bom prato sugerida pelo sommelier. O som agradável da música ambiente. Tudo isso que revela a arte do bem viver, um senso estético refinado é que levou Louis Pasteur a dizer que o vinho não é uma bebida alcoólica. E eu ter concluído que quem bebe vinho não se embriaga, entra em estado de graça.
Mas o vinho também esta presente no andar de baixo da sociedade. Quem não conhece o garrafão de vinho? Que em vez de harmonia com algum prato fica satisfeito se tiver por tira-gosto uns pedaços de chouriço. Vinho bebido não em taças, mas em grandes canecas. Mas que mesmo assim inspira os poetas como Pedro Carpigiani: "Mais um dia olhando o fundo do copo, mais um dia tomando esse vinho barato. O chão se mexe como se tentasse me derrubar"... Ou ainda Camila Custódio: "Há calma, quietude de dias enlouquecidos por vinho barato"... Ao que Paulo Mendes Campos acrescenta: "Somos inflacionados pelo nosso próprio vazio: a reação nervosa da embriaguez parece encher-nos ou pelo menos atenuar a presença do espírito desesperado dentro do corpo" (...) "Compreensível a esta pobre e arrogante criatura humana, já confrangida por um destino obscuro, arrumada odiosamente numa sociedade dividida em castas...esse extraordinário mal-estar coletivo".
E, finalizando, com ele mesmo, Paulo Mendes Campos: "Mas os ricos também bebem, e quanto! Bebem às vezes por má consciência",(...), "e bebem porque todos os bens terrestres são fantasias que se desfazem ao hálito da morte.
              Pois o que advogo no meu desespero dialético é a melhor distribuição das fantasias terrestres".



quarta-feira, 21 de março de 2018

CABERNET

Meu pai tomava vinho Cabernet às refeições.
Agora não pode mais fazê-lo.
Hoje eu o faço por ele.
Agora sou eu, meu pai, que toma vinho Cabernet às refeições.
Sou mas não sou.
Meu pai tomava-o provando, aprovando, reprovando...
E eu não sei fazer nada disso.
Apenas tomo vinho Cabernet às refeições.
Tomo-o como quem não quer nada.
Tomo-o dissimuladamente.
Tomo-o como quem não tem o direito de fazê-lo.
Perdoa-me meu pai morto que vive em mim
se não o faço exatamente como tu o fazias.
Perdoa-me se não existo exatamente como tu existias.
Perdoa-me se tomo vinho Cabernet também por minha causa.
Perdoa-me se eu existo também por mim.
É este o meu pecado mais original.
É-me impossível deixar de cometê-lo.
Por isso digo ao garçom:
Garçom, vinho Cabernet, por favor.
Se não tiver Cabernet traga-me outro que no fundo seja vinho Cabernet.
Mas, por favor, traga-me o vinho. Eu pago.
Vivo pagando todos os vinhos que tenho tomado em minha vida.
Vivo pagando pelo simples ato de viver.
Por favor, Garçom, traga-me o vinho que alguém em mim
anseia por tomá-lo.
Vinho Caberbet, por favor.
Cabernet.

             Poema de Luiz Sperb Lemos, poeta e psiquiatra autor do livro
            
Com Firma Reconhecida.

quarta-feira, 7 de março de 2018

TAMADA Festas e vinho na Georgia

           A Georgia em matéria de vinho deixa para trás a Itália, a França e Portugal. Os vinicultores lusitanos trabalham com mais de 200 castas, os georgianos dispõem de mais de 500. No Cáucaso georgiano na província de Kakheti no Mar Negro se produz vinho em assentamentos neolíticos há mais de 8 mil anos. O vinho é inerente à identidade nacional da Georgia. Na capital Tbilisi há uma estátua em alumínio com 20 metros de altura da Mãe da Georgia (Kartvlis Deda) símbolo do caráter nacional. A mulher, de vestido longo típico, na mão esquerda segura uma tigela de vinho para receber os amigos e na mão direita uma espada para repelir os inimigos. A Georgia ao longo de sua história já foi invadida por gregos, persas, romanos, árabes, mongóis, turcos, russos e soviéticos.
         Consta que a palavra vinho etimologicamente vem do georgiano ghvino. O povo georgiano produz muito vinho caseiro por um processo de vinificação milenar denominado qvevr. O vinho é elaborado em jarras de cerâmica que ficam enterradas por perto de sete meses. Como subproduto é feita uma aguardente com teor alcoólico de 80% chamada Chacha.
          O povo georgiano é hospitaleiro e festeiro. E as festas são animadas por um personagem típico, o TAMADA. Ele é responsável pelo entretenimento e seu papel é criar e manter uma atmosfera agradável e alegre. É o tamada que administra os brindes que são feitos durante as festas e o primeiro brinde é em homenagem a ele mesmo assim que é escolhido. É comum durante o brinde a exortação "Que ele nos proporcione bons momentos". A escolha do tamada depende do evento. Se for uma pequena reunião de amigos, o tamada geralmente é o dono da casa. E neste caso não há o primeiro brinde a ele. Também se costuma deixar a escolha do tamada à pessoa mais idosa da festa. Quando se trata de um grupo de amigos que se reúne com frequência eles podem fazer um revesamento de tamadas.
          Em eventos maiores a escolha é mais democrática e várias pessoas sugerem candidatos com talentos específicos para o cargo. E o tamada é eleito antecipadamente. De preferência deve ser uma pessoa eloquente, smart, de raciocínio rápido e bem humorada. Quando se revela um bom tamada ela costuma ser solicitada para o papel com frequência.
         O tamada ao propor um brinde  deixa o momento seguinte para desenvolver o motivo do brinde, às vezes isso resulta numa disputa entre oradores. Por outro lado a depender do que esteja sendo brindado, os homens podem ser instados a se levantar e beber seu vinho em silêncio. Quando uma pessoa é brindada, o tamada chama a atenção de todos para as qualidades que distinguem a pessoa homenageada. Segundo os georgianos o tamada é o ditador da mesa. Nas festas os convidados têm que pedir permissão a ele para abandonar a mesa ou o evento.
        Ao povo georgiano não faltam motivos para se brindar. O dez temas básicos, por tradição: 1) A Deus e à paz; 2) À Georgia; 3) Aos antepassados; 4) Às crianças e à vida; 5) À um fato especial (aniversário, casamento, graduação, etc.; 6) Aos pais; 7) Às mulheres; 8) Aos amigos; 9) Ao amor e ao belo; 10) À família anfitriã.
        A relação completa, na verdade, ultrapassa 150 motivos. Mas, apesar dos georgianos usarem um  copo pequeno para esses brindes, podem ficar tranquilos que as pessoas não são obrigadas a fazer todos esses brindes. E também o próprio tamada é obrigado a se segurar porque se ele se embriagar, segundo a tradição, isso é  motivo de vergonha para os georgianos.
       
 Foto 1. Tela do pintor primitivista georgiano Niko Pirosmani.
 Foto 2. Escultura em bronze do século VII aC na cidade de Vani de um tamada.
A estátua Kartvlis Deda do escultor Elguja Amashukeli.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O CRIADOR DO VINHO E A PRIMEIRA HARMONIZAÇÃO

        Tudo começou com o fato de Deus ter-se arrependido de ter criado o homem por causa da corrupção generalizada e da maldade ter tomado conta da terra (qualquer semelhança com os dias de hoje...). E o Senhor estava tão furioso que resolveu destruir não só a humanidade como a toda a vida que havia na terra. As plantas e os animais -dos répteis que rastejam no chão às aves que voam no céu. E ficou satisfeito com a lambança: "Destruímos toda a carne em que há espírito de vida sob os céus".
        
        Mas Deus ao mesmo tempo em que decidiu castigar a humanidade, arquitetou com a ajuda de Noé e sua família um novo plano para recriar a terra e dar uma nova chance à humanidade.
     A história da arca de Noé todos conhecem. Com sua pequena família constituída de seus três filhos e respectivas mulheres, Noé abrigou na arca um casal de cada bicho vivo. Deve ter estocado uma muda de cada planta também. Depois do Dilúvio, a arca de Noé estacionada no monte Ararat, Deus já arrependido de ter amaldiçoado a terra por causa dos homens, de ter ferido todo o ser vivente, disse a Noé: "Multiplicai-vos e enchei a terra!".
   Deus sempre tem planos para a raça humana. Prova disso são as diversas alianças que ele celebrou com o homem que burlou todas como que a dizer: "Não adianta, Senhor, sou um caso perdido, sem salvação". E Deus celebrou com Noé uma nova aliança que contemplava os bichos e as plantas, ele prometeu a Noé que não mais destruiria os seres vivos por causa do homem. O arco-íris ficou sendo o símbolo desta nova aliança de Deus com os homens, os bichos e as plantas.
     E como que numa manifestação de alegria para comemorar a nova era, livre de corrupção, Noé iniciou sua vida de agricultor plantando uma vinha. Marinheiro de primeira viagem, Noé, depois de ter criado o vinho, exagerou na comemoração (bebemoração) e bebeu até se embriagar. Falou sozinho e sob sua tenda tirou a roupa ficando nu em pelo. Seu filho de nome Cam viu a cena e correu para avisar os irmãos Sem e Jafé. Estes levaram um manto para Noé e tiveram o cuidado de virar o rosto para não ver a nudez do pai. 
      Quando passou o porre, Noé ficou uma fera com o que fizera Cam e o amaldiçoou ao mesmo tempo em que abençoou seus irmãos.
      No final das contas resta a interpretação de que o vinho, a despeito do pequeno escândalo da embriaguez de Noé, restou como um fato positivo para a humanidade. Símbolo de alegria e da reconciliação de Deus com a humanidade. Como diria Benjamin Franklin muito tempo depois: "O vinho é a prova definitiva de que Deus nos ama e quer nos ver felizes".
      A terra depois de maculada pelo pecado renasce contemplada por uma bebida que "alegra o coração" como o testifica o Salmo 104. 15 (...) "Senhor Deus meu, tu és magnificentíssimo. (...) Tu que fazes sair as fontes nos vales (...) para fazer sair da terra o pão (...), o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto".
     Este Salmo apresenta-nos a harmonização primeva: Vinho, pão e azeite de oliva.
     Deus seja louvado!


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Vinho e cocaína

Vinho e cocaína.

Desde 1860, quando o químico alemão Albert Nieman conseguiu isolar o componente ativo das folhas de coca, até sua proibição no século XX, várias propriedades terapêuticas foram atribuídas à cocaína.

O vinho favorito dos Papas Pio X e Leão XIII, por exemplo, continha cocaína em sua composição. Era chamado de Vin Mariani e foi inventado em 1863.

A bebida era preparada originalmente com vinho de Bordeaux e folhas de coca, mas, posteriormente, passou-se a utilizar cocaína já processada em sua confecção. O álcool presente no vinho funcionava como diluente e ativava a substância estimulante das folhas.

Afirmava-se que o consumo regular do elixir trazia energia, vigor e restituía a saúde em casos de debilidade crônica. Além disso, dizia-se que ele prevenia a malária e a gripe, era um antidepressivo eficaz e um analgésico poderoso.

Os cronistas da época contam que o Papa Leão XIII sempre carregava consigo um frasco cheio com a bebida. O pontífice chegou a dar uma medalha do Vaticano ao seu criador, Don Angelo.

A venda do Vin Mariani foi proibida em 1914, depois que familiares dos viciados iniciaram uma campanha contra a droga. 

Fonte: Blog Supercurioso.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

OMAR KHAYYAM O POETA DO VINHO

Omar khayyam (1048-1131) foi um poeta, matemático, filósofo (foi discípulo de Avicena) e astrônomo persa. Ele era bom em todas essas áreas de conhecimento. Sua obra mais importante foi um tratado de álgebra. No ano 1074 ele fez uma reforma do calendário persa que ficou tão preciso que acusou um erro de um dia em 5 mil anos. Mas Omar Khayyam se imortalizou graças à sua poesia. Ele é o autor de Rubaiyat que poderíamos chamar de uma coletânea de odes ao vinho. As Rubaiyat constituem 170 pequenos poemas. Na maioria deles o binômio vinho e mulher está presente (cá pra nós as duas melhores coisas desse mundo). Pretendo colocar aqui todos os que falam de vinho. Minhas fontes são duas traduções a de um brasileiro: Torrieri Guimarães e outra do  português Fernando Castro. Como havia alguma diferença entre as traduções eu editei e apresento para vocês a forma que me pareceu mais bonita.

CINCO
    Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
    procura ser feliz, hoje.
    Pega uma garrafa de vinho, senta-te ao luar e bebe
    tendo em vista que talvez amanhã não vejas a luz da lua.
      
SEIS
    Alguém se deleitará, diariamente lendo o Alcorão?
    Tal livro supremo os homens o lêem algumas vezes.
    Já nas bordas de todas as taças de vinho encontra-se
    inscrita uma máxima de sabedoria que todos nós
    somos atraídos a degustar.

SETE
     O nosso tesouro? O vinho.
     O nosso palácio? A taberna.
     Os nossos fieis companheiros?
     A sede e a embriaguez.
     Ignoramos o medo, por sabermos
     que as nossos corações,
     nossas almas, nossas taças e roupas
     maculados pelo vinho, nada têm a temer
     da terra, da água ou do fogo.

ONZE
     Toda a minha juventude refloresce, hoje!
     Vinho! Vinho! Que as suas chamas me consumam!
     Vinho! Vinho! Não importa qual...Não sou exigente.
     O melhor deles, creiam, achá-lo-ei amargo como a vida.

DEZESSEIS
      Amiga, nada mais me interessa.
      Traz-me vinho!
      Esta noite, a tua boca é a mais bela rosa do universo.
      Vinho! Rubro como tua face
      e os meus remorsos tão leves como as ondas dos teus cabelos.

DEZENOVE
       Tu que bebes vinho, num garrafão.
        Ignoro quem te criou.
        Somente sei que tu conténs
        três canecas de vinho
        e que um dia a morte te levará.
        Então pergunto a mim mesmo
        por que razão tu foste criado?
        e por que foste feliz?
        e por que ao pó retornaste?

VINTE E CINCO
        Na primavera gosto de sentar-me
        na orla de um campo florido.
        E quando acompanhado de uma bela moça
        e de uma taça de vinho,
        A última coisa que quero saber é da minha salvação.

TRINTA E UM
        Ninguém compreende o mistério.
        Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
        As nossas casas são provisórias, exceto a última: o cemitério.
        Amigo, bebe vinho! E dá um tempo nas elucubrações.

TRINTA E CINCO
        Eu estava sonolento, quando
        a Sabedoria me disse:
        "As rosas da felicidade
        nunca perfumam o sono.
        Em vez de te abandonares a esse irmão da morte,
        bebe vinho! Tens a eternidade para dormir".

QUARENTA E TRÊS
        Bebe vinho! Hás de receber
        a vida eterna com ele. O vinho!
        O único filtro que pode restituir-te a juventude.
        Juventude! divina estação das rosas e dos bons amigos.
        Desfruta desse instante fugaz que é a vida.

QUARENTA E QUATRO
        Bebe vinho, porque dormirás longamente sob a terra,
        sem mulher e sem amigos.
        Confio-te um segredo: rosas murchas não voltam a florir.

CINQUENTA E DOIS
       Não terás vivido inutilmente
       se tiveres incrustado no teu coração a rosa do amor
       ou se tiveres procurado ouvir a voz de Deus
       ou se tiveres erguido tua taça de vinho
       sorrindo de prazer.

CINQUENTA E QUATRO
       Um jardim, uma mulher insinuante, a taça cheia de vinho,
       meu desejo e minha amargura: meu paraíso e meu inferno.
       Alguém, por acaso, sabe o que é céu ou inferno?

CINQUENTA E SEIS
      Vida que segue... Que restou
      de Bagdá ou do Império Romano?
      O menor toque é fatal para a rosa que de manhã se abriu.
      Bebe vinho e contempla a lua lembrando das civilizações
      que a rosa viu entrar em decadência.

SESSENTA
      Sucumbiremos no caminho do amor.
      O Destino nos atropelará.
      Oh! querida, Oh! minha taça encantada levanta-te
      e dá-me teus lábios, antes que eu volte ao pó.

SESSENTA E UM
      Da sorte na vida sabemos só o nome.
      Nosso amigo mais velho é o vinho novo.
      Com o olhar e as mãos acaricia o único bem que não nos decepciona:
      O odre cheio do néctar das vinhas.

SESSENTA E CINCO
      Os homens tacanhos e os vaidosos
      fazem distinção entre alma e corpo.
      Afirmo apenas que o vinho acaba com as preocupações
      e nos proporciona paz.

SESSENTA E OITO
       A vida passa qual rápida caravana.
       Desce do cavalo e procura ser feliz.
       Querida, não fique triste.
       Traz vinho que a noite já vem.

SESSENTA E NOVE
        Ouvi dizer que os amantes do vinho estão condenados.
        Não há na vida verdades, mas grandes mentiras.
        Se os amantes do vinho e do amor forem para o Inferno,
        o Céu ficará vazio.

SETENTA
        Estou velho. Minha paixão
        por ti leva-me ao túmulo,
        pois não cesso de encher de vinho minha grande taça.
        A minha paixão por ti venceu a razão da minha razão.
        O tempo desfolha indiferente a bela rosa que eu possuía.

SETENTA E CINCO
         Vinho! Meu coração enfermo pede ardentemente este remédio.
         Vinho! De aroma almiscarado! Cor de rosas vermelhas!
         Vinho! Para apagar o fogo de minha tristeza!
         Vinho! E tua harpa de cordas de seda, querida!

SETENTA E OITO
         Dedica às luzes da aurora o vinho de tua taça,
         semelhante à tulipa da primavera.
         Dedica ao sorriso de um adolescente o vinho de tua taça,
         semelhante aos lábios dele.
         Bebe à vontade e esquece que o peso da Dor em breve te
         derrubará talvez para sempre... Bebe!
                                                                       

SETENTA E NOVE
         Vinho! Vinho em grandes goles!
         Que pressione as minhas veias!
         Que esquente a minha cabeça!
         Taças... não falem! É tudo mentira!
         Taças... não demorem! Estou ficando velho...

OITENTA
         De meu túmulo vai exalar um tal aroma de vinho,
         que os visitantes ficarão tontos!
         Uma aura de paz envolverá o meu jazigo,
         que os amantes não poderão afastar-se dele.

OITENTA E DOIS
         Dizem-me: "Não bebas mais Khayyam"!
         Retruco: Quando bebo entendo a voz das rosas,
         das tulipas e dos jasmins e até o que não diz minha amada.

OITENTA E TRÊS
         Em que pensas, amigo? Nos teus antepassados?
         Deles resta apenas pó.
         Pensas nos méritos deles? Não me faças rir.
         Toma este copo e vamos beber,
         percebendo em paz o grande silêncio do universo.

OITENTA E QUATRO
         A aurora encheu de rosas o firmamento.
         No ar puro ouve-se o canto do último rouxinol.
         O aroma do vinho é leve.
         E pensar que neste mundo aloprados sonham com glórias e honrarias!
         Como são sedosos teus cabelos, querida.

OITENTA E SEIS
         Ò gladiador de corações, pega essa garrafa e esse copo!
         Vamos sentar-nos junto do regato.
         Esbelto adolescente de semblante claro,
         contemplo-te enquanto penso no devenir garrafa e copo
                                                                                           que tu és.
NOVENTA E DOIS
         Ao poderio de Gengis Khan, à glória de César,
         às riquezas de Salomão, eu prefiro uma jarra de vinho.
         Viva o amante que que geme de prazer
         e desprezo o hipócrita que murmura uma prece.

NOVENTA E SEIS
         Não deixes de colher todos os frutos da vida.
         Corre a todas as festas e escolhe as maiores taças.
         Não creias que Deus considere
         os nossos vícios ou as nossas virtudes.
         E não desprezes nada que te possa fazer feliz.

NOVENTA E NOVE
         Quando a sombra da morte me atingir,
         quando o meu paletó de madeira for abotoado,
         Chamarei por vocês meus amigos,
         levem-me até minha sepultura.
         E quando eu voltar a ser pó,
         moldem com minhas cinzas uma jarra
         e encham-na de vinho. Daí então
         despertarei de novo para a vida.

CEM
         Não me preocupa saber onde posso comprar
         o véu da Perfídia ou o da Mentira.
         Mas sempre ando a procura de bom vinho.
         Os meus cabelos já estão brancos.
         Cheguei aos setenta.
         Aproveito a ocasião para ser feliz hoje.
         Talvez amanhã já não tenha mais forças.

CENTO E SEIS
         Terás do vinho o seu calor.
         Ele te libertará das névoas do passado e das brumas do futuro.
         Te inundará de luz.
         Quebrará tuas algemas de prisioneiro.  

CENTO E TREZE
         Numa cantina, pedi a um ancião
         que me dissesse algo sobre os que já se foram.
         Respondeu-me: "O certo é que não mais retornarão,
         bebe teu vinho"!

CENTO E CATORZE
         Olha! Escuta! Uma rosa balança ao vento.
         Um rouxinol dedica-lhe um canto apaixonado.
         Uma nuvem estacionou nos oferecendo sua sombra.
         Bebamos o nosso vinho!
         Esquece que a ventania arrancará as pétalas da rosa,
         levará o canto do rouxinol, e até a nuvem que nos dá sombra.

CENTO E DEZESSETE
         Esta noite ou amanhã, talvez, tu já não existirás.
         É tempo de pedires vinho cor de rosa.
         (...)

CENTO E VINTE E UM
         As estrelas deixam cair pétalas de ouro.
         Por que o meu jardim ainda não está coberto?
         Assim como o céu verte flores sobre a terra,
         encho de vinho rubro a minha taça negra.

CENTO E VINTE E DOIS
         Bebo vinho tal como as raízes do salgueiro
         bebem as águas límpidas do regato.
         Deus quando me criou, sabia que eu haveria de beber vinho.
         Se eu me abstivesse, Ele seria imperfeito.

CENTO E VINTE E TRÊS
         Só o vinho pode te livrar de tuas dúvidas.
         Só ele te impedirá de hesitar entre tantas seitas e doutrinas.
         Não te separes, pois, do mago que possui o poder
         de te conduzir ao país do esquecimento.

CENTO E VINTE E SEIS
         O vinho tem a cor rosada.
         O vinho talvez não seja o sangue da vinha, e sim do roseiral.
         Essa taça não é de cristal, mas de azul celeste coagulado.
         A noite não é tão diversa do dia, é apenas a pálpebra do dia.

CENTO E VINTE E SETE
         O vinho proporciona aos sábios
         a embriaguez dos eleitos.
         O vinho devolve-nos a mocidade e tudo o que desejamos.
         Queima-nos como uma torrente de fogo,
         mas também é um refrigério para nossa tristeza.

CENTO E TRINTA E QUATRO
         Cansado de interrogar, em vão, homens e livros,
         pensei em interpelar a taça de vinho.
         Pousei meus lábios sobre os seus,
         e murmurei. "Quado eu morrer para onde vou"?
         Ela respondeu: "Bebe na minha boca, bebe intensamente.
         Jamais voltarás aqui".

CENTO E TRINTA E SETE
         Disseram que o vinho era o único bálsamo.
         Tragam-me todo o vinho do universo!
         O meu coração está tão ferido...
         Todo o vinho do universo...
          e que meu coração conserve suas feridas!

CENTO E QUARENTA E QUATRO
         Um pouco mais de vinho, doce amada.
         As tuas faces não têm ainda o esplendor das rosas.
         Não fique triste Khayyam!
         A tua amada está prestes a sorrir para ti.

CENTO E QUARENTA E OITO
         Dissimulo a minha dor,
         porque as aves feridas se escondem para morrer.
         Vinho! Ouve meus graçejos!
         Vinho, rosas, canto lírico
         e a tua indiferença à minha tristeza, ò bem amada.

CENTO E SESSENTA E SEIS
         Todos os reinos por uma taça de vinho!
         Todos os livros e toda a ciência dos homens
         por um suave aroma de vinho!
         Todos os hinos de amor pelo som do vinho sendo derramado nas taças.
         (...)

Aqui terminam as odes nas quais o vinho está presente. Só uma ou duas não entraram
por serem fraquinhas.