sexta-feira, 23 de março de 2018

O VINHO SUBLIME E RASCANTE

O vinho está presente nas vicissitudes da condição humana. Um bom vinho e tudo que ele demanda para que se lhe confira pleno significado. A taça transparente de haste longa e boca estreita. O vermelho intenso do nectar. A meia luz. O aroma de baunilha. O perfume de mulher. A harmonização com um bom prato sugerida pelo sommelier. O som agradável da música ambiente. Tudo isso que revela a arte do bem viver, um senso estético refinado é que levou Louis Pasteur a dizer que o vinho não é uma bebida alcoólica. E eu ter concluído que quem bebe vinho não se embriaga, entra em estado de graça.
Mas o vinho também esta presente no andar de baixo da sociedade. Quem não conhece o garrafão de vinho? Que em vez de harmonia com algum prato fica satisfeito se tiver por tira-gosto uns pedaços de chouriço. Vinho bebido não em taças, mas em grandes canecas. Mas que mesmo assim inspira os poetas como Pedro Carpigiani: "Mais um dia olhando o fundo do copo, mais um dia tomando esse vinho barato. O chão se mexe como se tentasse me derrubar"... Ou ainda Camila Custódio: "Há calma, quietude de dias enlouquecidos por vinho barato"... Ao que Paulo Mendes Campos acrescenta: "Somos inflacionados pelo nosso próprio vazio: a reação nervosa da embriaguez parece encher-nos ou pelo menos atenuar a presença do espírito desesperado dentro do corpo" (...) "Compreensível a esta pobre e arrogante criatura humana, já confrangida por um destino obscuro, arrumada odiosamente numa sociedade dividida em castas...esse extraordinário mal-estar coletivo".
E, finalizando, com ele mesmo, Paulo Mendes Campos: "Mas os ricos também bebem, e quanto! Bebem às vezes por má consciência",(...), "e bebem porque todos os bens terrestres são fantasias que se desfazem ao hálito da morte.
              Pois o que advogo no meu desespero dialético é a melhor distribuição das fantasias terrestres".



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