quarta-feira, 21 de março de 2018

CABERNET

Meu pai tomava vinho Cabernet às refeições.
Agora não pode mais fazê-lo.
Hoje eu o faço por ele.
Agora sou eu, meu pai, que toma vinho Cabernet às refeições.
Sou mas não sou.
Meu pai tomava-o provando, aprovando, reprovando...
E eu não sei fazer nada disso.
Apenas tomo vinho Cabernet às refeições.
Tomo-o como quem não quer nada.
Tomo-o dissimuladamente.
Tomo-o como quem não tem o direito de fazê-lo.
Perdoa-me meu pai morto que vive em mim
se não o faço exatamente como tu o fazias.
Perdoa-me se não existo exatamente como tu existias.
Perdoa-me se tomo vinho Cabernet também por minha causa.
Perdoa-me se eu existo também por mim.
É este o meu pecado mais original.
É-me impossível deixar de cometê-lo.
Por isso digo ao garçom:
Garçom, vinho Cabernet, por favor.
Se não tiver Cabernet traga-me outro que no fundo seja vinho Cabernet.
Mas, por favor, traga-me o vinho. Eu pago.
Vivo pagando todos os vinhos que tenho tomado em minha vida.
Vivo pagando pelo simples ato de viver.
Por favor, Garçom, traga-me o vinho que alguém em mim
anseia por tomá-lo.
Vinho Caberbet, por favor.
Cabernet.

             Poema de Luiz Sperb Lemos, poeta e psiquiatra autor do livro
            
Com Firma Reconhecida.

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