quarta-feira, 22 de junho de 2016

OMAR KHAYYAM O POETA DO VINHO

Omar khayyam (1048-1131) foi um poeta, matemático, filósofo (foi discípulo de Avicena) e astrônomo persa. Ele era bom em todas essas áreas de conhecimento. Sua obra mais importante foi um tratado de álgebra. No ano 1074 ele fez uma reforma do calendário persa que ficou tão preciso que acusou um erro de um dia em 5 mil anos. Mas Omar Khayyam se imortalizou graças à sua poesia. Ele é o autor de Rubaiyat que poderíamos chamar de uma coletânea de odes ao vinho. As Rubaiyat constituem 170 pequenos poemas. Na maioria deles o binômio vinho e mulher está presente (cá pra nós as duas melhores coisas desse mundo). Pretendo colocar aqui todos os que falam de vinho. Minhas fontes são duas traduções a de um brasileiro: Torrieri Guimarães e outra do  português Fernando Castro. Como havia alguma diferença entre as traduções eu editei e apresento para vocês a forma que me pareceu mais bonita.

CINCO
    Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
    procura ser feliz, hoje.
    Pega uma garrafa de vinho, senta-te ao luar e bebe
    tendo em vista que talvez amanhã não vejas a luz da lua.
      
SEIS
    Alguém se deleitará, diariamente lendo o Alcorão?
    Tal livro supremo os homens o lêem algumas vezes.
    Já nas bordas de todas as taças de vinho encontra-se
    inscrita uma máxima de sabedoria que todos nós
    somos atraídos a degustar.

SETE
     O nosso tesouro? O vinho.
     O nosso palácio? A taberna.
     Os nossos fieis companheiros?
     A sede e a embriaguez.
     Ignoramos o medo, por sabermos
     que as nossos corações,
     nossas almas, nossas taças e roupas
     maculados pelo vinho, nada têm a temer
     da terra, da água ou do fogo.

ONZE
     Toda a minha juventude refloresce, hoje!
     Vinho! Vinho! Que as suas chamas me consumam!
     Vinho! Vinho! Não importa qual...Não sou exigente.
     O melhor deles, creiam, achá-lo-ei amargo como a vida.

DEZESSEIS
      Amiga, nada mais me interessa.
      Traz-me vinho!
      Esta noite, a tua boca é a mais bela rosa do universo.
      Vinho! Rubro como tua face
      e os meus remorsos tão leves como as ondas dos teus cabelos.

DEZENOVE
       Tu que bebes vinho, num garrafão.
        Ignoro quem te criou.
        Somente sei que tu conténs
        três canecas de vinho
        e que um dia a morte te levará.
        Então pergunto a mim mesmo
        por que razão tu foste criado?
        e por que foste feliz?
        e por que ao pó retornaste?

VINTE E CINCO
        Na primavera gosto de sentar-me
        na orla de um campo florido.
        E quando acompanhado de uma bela moça
        e de uma taça de vinho,
        A última coisa que quero saber é da minha salvação.

TRINTA E UM
        Ninguém compreende o mistério.
        Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
        As nossas casas são provisórias, exceto a última: o cemitério.
        Amigo, bebe vinho! E dá um tempo nas elucubrações.

TRINTA E CINCO
        Eu estava sonolento, quando
        a Sabedoria me disse:
        "As rosas da felicidade
        nunca perfumam o sono.
        Em vez de te abandonares a esse irmão da morte,
        bebe vinho! Tens a eternidade para dormir".

QUARENTA E TRÊS
        Bebe vinho! Hás de receber
        a vida eterna com ele. O vinho!
        O único filtro que pode restituir-te a juventude.
        Juventude! divina estação das rosas e dos bons amigos.
        Desfruta desse instante fugaz que é a vida.

QUARENTA E QUATRO
        Bebe vinho, porque dormirás longamente sob a terra,
        sem mulher e sem amigos.
        Confio-te um segredo: rosas murchas não voltam a florir.

CINQUENTA E DOIS
       Não terás vivido inutilmente
       se tiveres incrustado no teu coração a rosa do amor
       ou se tiveres procurado ouvir a voz de Deus
       ou se tiveres erguido tua taça de vinho
       sorrindo de prazer.

CINQUENTA E QUATRO
       Um jardim, uma mulher insinuante, a taça cheia de vinho,
       meu desejo e minha amargura: meu paraíso e meu inferno.
       Alguém, por acaso, sabe o que é céu ou inferno?

CINQUENTA E SEIS
      Vida que segue... Que restou
      de Bagdá ou do Império Romano?
      O menor toque é fatal para a rosa que de manhã se abriu.
      Bebe vinho e contempla a lua lembrando das civilizações
      que a rosa viu entrar em decadência.

SESSENTA
      Sucumbiremos no caminho do amor.
      O Destino nos atropelará.
      Oh! querida, Oh! minha taça encantada levanta-te
      e dá-me teus lábios, antes que eu volte ao pó.

SESSENTA E UM
      Da sorte na vida sabemos só o nome.
      Nosso amigo mais velho é o vinho novo.
      Com o olhar e as mãos acaricia o único bem que não nos decepciona:
      O odre cheio do néctar das vinhas.

SESSENTA E CINCO
      Os homens tacanhos e os vaidosos
      fazem distinção entre alma e corpo.
      Afirmo apenas que o vinho acaba com as preocupações
      e nos proporciona paz.

SESSENTA E OITO
       A vida passa qual rápida caravana.
       Desce do cavalo e procura ser feliz.
       Querida, não fique triste.
       Traz vinho que a noite já vem.

SESSENTA E NOVE
        Ouvi dizer que os amantes do vinho estão condenados.
        Não há na vida verdades, mas grandes mentiras.
        Se os amantes do vinho e do amor forem para o Inferno,
        o Céu ficará vazio.

SETENTA
        Estou velho. Minha paixão
        por ti leva-me ao túmulo,
        pois não cesso de encher de vinho minha grande taça.
        A minha paixão por ti venceu a razão da minha razão.
        O tempo desfolha indiferente a bela rosa que eu possuía.

SETENTA E CINCO
         Vinho! Meu coração enfermo pede ardentemente este remédio.
         Vinho! De aroma almiscarado! Cor de rosas vermelhas!
         Vinho! Para apagar o fogo de minha tristeza!
         Vinho! E tua harpa de cordas de seda, querida!

SETENTA E OITO
         Dedica às luzes da aurora o vinho de tua taça,
         semelhante à tulipa da primavera.
         Dedica ao sorriso de um adolescente o vinho de tua taça,
         semelhante aos lábios dele.
         Bebe à vontade e esquece que o peso da Dor em breve te
         derrubará talvez para sempre... Bebe!
                                                                       

SETENTA E NOVE
         Vinho! Vinho em grandes goles!
         Que pressione as minhas veias!
         Que esquente a minha cabeça!
         Taças... não falem! É tudo mentira!
         Taças... não demorem! Estou ficando velho...

OITENTA
         De meu túmulo vai exalar um tal aroma de vinho,
         que os visitantes ficarão tontos!
         Uma aura de paz envolverá o meu jazigo,
         que os amantes não poderão afastar-se dele.

OITENTA E DOIS
         Dizem-me: "Não bebas mais Khayyam"!
         Retruco: Quando bebo entendo a voz das rosas,
         das tulipas e dos jasmins e até o que não diz minha amada.

OITENTA E TRÊS
         Em que pensas, amigo? Nos teus antepassados?
         Deles resta apenas pó.
         Pensas nos méritos deles? Não me faças rir.
         Toma este copo e vamos beber,
         percebendo em paz o grande silêncio do universo.

OITENTA E QUATRO
         A aurora encheu de rosas o firmamento.
         No ar puro ouve-se o canto do último rouxinol.
         O aroma do vinho é leve.
         E pensar que neste mundo aloprados sonham com glórias e honrarias!
         Como são sedosos teus cabelos, querida.

OITENTA E SEIS
         Ò gladiador de corações, pega essa garrafa e esse copo!
         Vamos sentar-nos junto do regato.
         Esbelto adolescente de semblante claro,
         contemplo-te enquanto penso no devenir garrafa e copo
                                                                                           que tu és.
NOVENTA E DOIS
         Ao poderio de Gengis Khan, à glória de César,
         às riquezas de Salomão, eu prefiro uma jarra de vinho.
         Viva o amante que que geme de prazer
         e desprezo o hipócrita que murmura uma prece.

NOVENTA E SEIS
         Não deixes de colher todos os frutos da vida.
         Corre a todas as festas e escolhe as maiores taças.
         Não creias que Deus considere
         os nossos vícios ou as nossas virtudes.
         E não desprezes nada que te possa fazer feliz.

NOVENTA E NOVE
         Quando a sombra da morte me atingir,
         quando o meu paletó de madeira for abotoado,
         Chamarei por vocês meus amigos,
         levem-me até minha sepultura.
         E quando eu voltar a ser pó,
         moldem com minhas cinzas uma jarra
         e encham-na de vinho. Daí então
         despertarei de novo para a vida.

CEM
         Não me preocupa saber onde posso comprar
         o véu da Perfídia ou o da Mentira.
         Mas sempre ando a procura de bom vinho.
         Os meus cabelos já estão brancos.
         Cheguei aos setenta.
         Aproveito a ocasião para ser feliz hoje.
         Talvez amanhã já não tenha mais forças.

CENTO E SEIS
         Terás do vinho o seu calor.
         Ele te libertará das névoas do passado e das brumas do futuro.
         Te inundará de luz.
         Quebrará tuas algemas de prisioneiro.  

CENTO E TREZE
         Numa cantina, pedi a um ancião
         que me dissesse algo sobre os que já se foram.
         Respondeu-me: "O certo é que não mais retornarão,
         bebe teu vinho"!

CENTO E CATORZE
         Olha! Escuta! Uma rosa balança ao vento.
         Um rouxinol dedica-lhe um canto apaixonado.
         Uma nuvem estacionou nos oferecendo sua sombra.
         Bebamos o nosso vinho!
         Esquece que a ventania arrancará as pétalas da rosa,
         levará o canto do rouxinol, e até a nuvem que nos dá sombra.

CENTO E DEZESSETE
         Esta noite ou amanhã, talvez, tu já não existirás.
         É tempo de pedires vinho cor de rosa.
         (...)

CENTO E VINTE E UM
         As estrelas deixam cair pétalas de ouro.
         Por que o meu jardim ainda não está coberto?
         Assim como o céu verte flores sobre a terra,
         encho de vinho rubro a minha taça negra.

CENTO E VINTE E DOIS
         Bebo vinho tal como as raízes do salgueiro
         bebem as águas límpidas do regato.
         Deus quando me criou, sabia que eu haveria de beber vinho.
         Se eu me abstivesse, Ele seria imperfeito.

CENTO E VINTE E TRÊS
         Só o vinho pode te livrar de tuas dúvidas.
         Só ele te impedirá de hesitar entre tantas seitas e doutrinas.
         Não te separes, pois, do mago que possui o poder
         de te conduzir ao país do esquecimento.

CENTO E VINTE E SEIS
         O vinho tem a cor rosada.
         O vinho talvez não seja o sangue da vinha, e sim do roseiral.
         Essa taça não é de cristal, mas de azul celeste coagulado.
         A noite não é tão diversa do dia, é apenas a pálpebra do dia.

CENTO E VINTE E SETE
         O vinho proporciona aos sábios
         a embriaguez dos eleitos.
         O vinho devolve-nos a mocidade e tudo o que desejamos.
         Queima-nos como uma torrente de fogo,
         mas também é um refrigério para nossa tristeza.

CENTO E TRINTA E QUATRO
         Cansado de interrogar, em vão, homens e livros,
         pensei em interpelar a taça de vinho.
         Pousei meus lábios sobre os seus,
         e murmurei. "Quado eu morrer para onde vou"?
         Ela respondeu: "Bebe na minha boca, bebe intensamente.
         Jamais voltarás aqui".

CENTO E TRINTA E SETE
         Disseram que o vinho era o único bálsamo.
         Tragam-me todo o vinho do universo!
         O meu coração está tão ferido...
         Todo o vinho do universo...
          e que meu coração conserve suas feridas!

CENTO E QUARENTA E QUATRO
         Um pouco mais de vinho, doce amada.
         As tuas faces não têm ainda o esplendor das rosas.
         Não fique triste Khayyam!
         A tua amada está prestes a sorrir para ti.

CENTO E QUARENTA E OITO
         Dissimulo a minha dor,
         porque as aves feridas se escondem para morrer.
         Vinho! Ouve meus graçejos!
         Vinho, rosas, canto lírico
         e a tua indiferença à minha tristeza, ò bem amada.

CENTO E SESSENTA E SEIS
         Todos os reinos por uma taça de vinho!
         Todos os livros e toda a ciência dos homens
         por um suave aroma de vinho!
         Todos os hinos de amor pelo som do vinho sendo derramado nas taças.
         (...)

Aqui terminam as odes nas quais o vinho está presente. Só uma ou duas não entraram
por serem fraquinhas.

    

                                                                                                 
        






                                                                  


         






      

    

   



       
     

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