quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O VINHO POR DRUMMOND QUANDO ERA MENINO


O vinho à mesa, liturgia.
Respeito silencioso
paira sobre a toalha.
A garrafa espera o gesto,
o saca-rolha espera
o gesto que há de ser lento e ritual.
Ergue-se o pai, grão sacerdote
e prende a garrafa entre os joelhos,
gira regira a espira metálica
até o coração do gargalo.
Não faz esforço,
não enviesa,
não rompe a rolha.
É grave, simples,
de velha norma.
Nítido espoca
o ar libertado.
O vinho escorre
sereno, distribuindo-se
em porções convenientes:
copo cheio, os grandes;
a gente, dois dedos.
Bebe o pai primeiro.
Assume a responsabilidade
sacra.
Já podemos todos
saber que o vinho é bom
e piamente degustá-lo.
Mas quem diz que bebo solene ?
Meu pensamento é o saca-rolha,
o sonho de abrir a garrafa
como ele - só ele - abre.
A roxa mácula no linho,
pecado capital.
Esse menino
não aprende nunca a beber vinho ?
Quero é aprender a abrir o vinho
e nem mesmo posso aspirar
ao direito de abrir o vinho
que incumbe ao pai e a mais ninguém
em nossa antiga religião.

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